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sábado, 29 de setembro de 2012

O que vale a pena





“O mais absurdo é o encontro entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem”.
(Albert Camus)

Pode ser tudo ou nada... ou o que há poucos instantes não possuía significado algum e ainda navegava impreciso no âmbito da subjetividade indecisa de seus anseios. Quem sabe limitada aos devaneios ineficazes em criar compor melodias de embriaguez, como Dioniso a espreitar seu próprio delírio. Pode ser até o que nem sequer se suspeita

Talvez o que valha a pena seja o que faça com que algo ou alguém nos permita olhares singulares – mais profundos, mais densos, mais translúcidos – e que surpreendem até a quem os carregam. Olhares que fascinam, encantam e se tornam especiais sem maiores dizeres ou até sentires.

É ficar em êxtase simplesmente pela existência ou pela constatação de que amanhãs são possíveis. E ainda que não o sejam, que algo da nossa essência se perpetue, como um legado a transcender o que possa valer para a alma.

É o transpor de realidades vãs que não comportam o perseguido e indulgente estado do nirvana, onde as almas se perdem em vazios que libertam e absorvem plenitude, mas que excluem as multiplicidades que colorem a instabilidade e a busca. E que também congelam a instigante característica de básica humanidade: a que permite saborear o que ainda não foi concedido, porque não chegou o momento... porque ainda não é válido conceder.

O que se revela como essencial a tudo o que o instante traduz, completando o vazio que não se explica e recriando a distância que separa o que instiga e incomoda da complacência do espírito, inserindo reticências necessárias ao aos preceitos indizíveis do pensamento.

Ou o que seduz, tal como o reflexo de tudo o que apenas desejamos revelar e reconhecer em nós mesmos, como um espelho difuso que reflete fantasias ocasionais de um sonho ainda por despertar.

Compreender o que somos a partir de tudo o que pode ser tenuemente vislumbrado, na medida elementar para apenas nos sentirmos confortáveis em nosso próprio reduto, como referências para sensações e afinidades, trocas e prazeres intencionados.

Vale a pena quando um ínfimo grão é capaz de deslocar a órbita da engessada zona de conforto existencial, revirando tudo o que supostamente banaliza a vida, lançando-a em turbilhões emocionais passíveis de movimentar além de céus e infernos ou de mundos possíveis, com passagens secretas para a ilusão virtual... na tentativa de desbravar as portas fechadas que a ignorância e o torpor insistem em convencer.

Enfim, pode ser tudo o que nos incita a querer o que vai além do sombrio vale da inércia instaurada em geografias que nem mesmo são percebidas... em mares onde cantos de sereias inebriam e horizontes que nunca se revelam.

Porque transformar pedras em pétalas por caminhos escorregadios não é tarefa para heróis ou seres mágicos, mas para quem ainda acredita na própria divindade, na autocondição de que vale realmente a pena levantar o olhar e buscar ar onde tudo sufoca. Porque inspirar a vida é função para quem existe, para quem se atropela, mergulha fundo e vaza limites... é para quem sonha!

Mesmo sabendo que, às vezes, é preciso deixar o tempo passar... para que a coragem desista de se ocultar ou a insanidade se aproxime. Porque viver é se revestir do que importa, do que transgride e do que ultrapassa, do que confere vitalidade ao grão, ainda que de forma insana e absurda. Ou porque viver, além de tudo o que possa ser sentido, é fazer valer o que pulsa, o que vibra, o que apaixona.

Luana Tavares (setembro/2012)

2 comentários:

  1. "Vale a pena quando um ínfimo grão é capaz de deslocar a órbita da engessada zona de conforto existencial......"

    Não há dúvida de que a zona de conforto existencial seja alvo da vida de muita gente. Pode ser também que seja quase sinônimo de paz interior para outros. Entretanto para alguns pode significar inércia da alma, marasmo, fastio ou desconforto do ser. Neste caso ,a zona de conforto necessita ser "tsunamizada", estremecida , rachada,desmoronada para que enfim, aprecie a beleza dos turbilhões, das intensidades, do frenesi, dos arrebatamentos. O desconforto da zona existencial tem seu apreço na medida que nos possibilita vivências que alimentam a alma com paixão e nos lembram que a vida nos remete a transcendência do sentir.

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  2. Com certeza, Marcelo, esta zona está diretamente vinculada justamente ao que vale a pena para cada singularidade. E o ínfimo grão a que me refiro é tudo que provoca um deslocamento, singelo que seja, em direção às mudanças possibilitadoras de novos ajustes e novas intensidades. Algumas pessoas vão preferir, entretanto, permanecer onde estão, imersas na sua ilusão de conforto existencial. A cada um, portanto, o direito de se exercer da forma que melhor lhe convier. Nem todos apreciam a beleza de uma tempestade ou a força de uma pequena flor...
    Beijos e obrigada!
    Lua

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